Marcação de Alérgenos no Cardápio: Ícones, Texto e Filtros

Por Ibrahim Anjro · · 12 min de leitura

Cardápio digital exibindo ícones de alérgenos e filtro por restrição alimentar

A forma certa de declarar alérgenos é dado estruturado, não texto na descrição. Veja o padrão de ícones, o posicionamento ideal e como montar um filtro que o cliente usa sozinho.

Marcar alérgenos parece um detalhe de design, mas é uma das decisões mais consequentes do cardápio. Feita direito, ela protege o cliente, protege o restaurante juridicamente e ainda melhora a experiência de quem tem restrição alimentar. Feita errado — normalmente escrevendo "contém castanhas" no meio da descrição — ela cria ruído, quebra na tradução e vira prova contra a casa quando algo dá errado.

Este guia responde às perguntas práticas: ícone ou texto? Onde posicionar? Como montar um filtro para o cliente? E como fazer tudo isso funcionar em vários idiomas sem que a informação se perca no caminho.

TL;DR: o essencial

  • A forma correta de marcar alérgenos é dado estruturado por prato + ícone padronizado + a palavra no idioma local. Nunca como texto corrido traduzível.

  • Todo prato precisa de marcação, com ícone (para varredura visual rápida) e palavra (para clareza e cumprimento legal).

  • O filtro de alérgenos do lado do cliente é a melhoria de experiência com maior retorno: ele substitui a maior parte das interações "isso é seguro para mim?" no salão.

  • Ícones não são universais. Padronize o conjunto e sempre combine com a palavra escrita para eliminar ambiguidade.

  • Separe alérgeno de marcador de dieta. Vegetariano, vegano e halal são preferência; alérgeno é informação de segurança. Misturar os dois quebra os dois filtros.

Antes do design: o que a lei brasileira espera de você

Vale começar pelo enquadramento, porque ele define o mínimo aceitável.

A RDC 26/2015 da Anvisa rege a declaração de alérgenos em rótulos de alimentos embalados e padroniza a redação: "Alérgicos: Contém (nome comum do alimento)", "Alérgicos: Contém derivados de (nome comum)" e "Alérgicos: Pode conter (nome comum)". Se o seu restaurante vende qualquer item embalado no próprio estabelecimento — marmita, sanduíche de geladeira, bolo em pote, molho engarrafado —, essa redação é obrigatória no rótulo.

Para o prato servido à mesa, a obrigação vem do Código de Defesa do Consumidor: os artigos 6º, III, e 31 exigem informação clara, correta, precisa e ostensiva sobre composição e riscos. Some a isso a Lei 10.674/2003("Contém Glúten" / "Não Contém Glúten") e a RDC 136/2017, que trata da declaração de lactose.

Se você atende turistas europeus ou exporta, entra ainda o Regulamento (UE) 1169/2011— norma europeia que obriga a declaração de 14 alérgenos inclusive em alimentos não pré-embalados servidos em restaurantes. Não vale no Brasil, mas define a expectativa do hóspede estrangeiro e cobre quatro itens ausentes da lista brasileira: aipo, mostarda, gergelim e tremoço.

Conclusão prática de design: quem marca a união das duas listas resolve o cliente brasileiro e o estrangeiro com o mesmo cardápio.

Alérgenos devem ser ícone, texto ou os dois?

Os dois. Sempre.

O ícone permite varredura visual rápida, o que importa muito para quem tem várias restrições e precisa filtrar o cardápio inteiro em segundos. A palavra escrita cumpre a exigência de informação clara e elimina a ambiguidade do ícone para quem não conhece a convenção local.

O padrão que funciona em cardápio digital:

  • Uma linha discreta de ícones logo abaixo de cada prato, mostrando os alérgenos presentes.

  • A palavra equivalente visível ao tocar, passar o mouse ou abrir o detalhe do prato.

  • Ícone e palavra localizados no idioma selecionado pelo cliente.

No cardápio impresso, o equivalente é ícone mais abreviação por prato (G para glúten, L para lactose, e assim por diante), com a legenda no rodapé ou no verso.

O que não fazer: escrever o alérgeno dentro da descrição do prato ("contém castanhas e leite"). É o erro mais comum e o pior de todos, porque some no meio do texto, não é filtrável e se deforma na tradução.

Como mostrar alérgenos sem deixar o cardápio feio

Quase todo operador teme que a declaração de alérgenos polua o cardápio. Na prática, uma marcação bem desenhada é invisível para quem não precisa dela e imediatamente útil para quem precisa.

Cinco princípios de design:

  1. Menor e abaixo do preço na hierarquia visual. Os ícones devem ser visíveis, mas secundários em relação à descrição. Algo em torno de 60% a 70% do tamanho da fonte do preço, em uma linha logo abaixo da descrição, resolve visibilidade e discrição ao mesmo tempo.

  2. Conjunto de ícones consistente. O mesmo alérgeno usa o mesmo ícone em todo o cardápio, sempre. Ícone de trigo em um lugar e a palavra "glúten" em outro cria inconsistência que atrapalha a leitura.

  3. Cor com parcimônia. Algumas plataformas usam cor por prioridade (vermelho para castanhas e frutos do mar, âmbar para leite e ovo, neutro para os demais). Funciona, mas em excesso vira poluição visual.

  4. Simplificação quando o filtro está ativo. Quem filtrou "sem frutos do mar" não precisa ver ícones de frutos do mar em pratos que já sumiram. O cardápio digital simplifica a exibição automaticamente.

  5. Detalhe sob demanda. Um pequeno "i" ao lado dos ícones abre a informação completa: "contém castanhas — pinoli; pode conter glúten — contaminação cruzada na fritadeira". Aparece só para quem quer ver.

Restaurantes que acertam o design relatam um efeito colateral positivo: a declaração de alérgenos deixa de ser obrigação burocrática e vira sinal de qualidade. O cliente entende que aquela cozinha leva segurança a sério.

Onde os alérgenos devem aparecer na página do cardápio

Em cardápio digital, a resposta é: logo abaixo da descrição do prato, antes do preço.

O fluxo natural de leitura é este:

  1. O cliente vê o nome do prato.

  2. Lê a descrição.

  3. Passa os olhos pelos ícones de alérgeno — inconscientemente, se não tem restrição; conscientemente, se tem.

  4. Vê o preço.

  5. Decide se pede.

Colocar o alérgeno depois do preço interrompe a decisão que já foi tomada. Colocar antes da descrição obriga o cliente a processar a informação antes de saber o que é o prato. Abaixo da descrição e antes do preço é o encaixe certo.

No cardápio impresso, a mesma lógica: código abreviado imediatamente depois da descrição, antes da coluna de preço.

Como permitir que o cliente filtre por alérgeno

O filtro de alérgenos é a funcionalidade de maior alavancagem em um cardápio por QR code — e é simples de configurar quando os dados do cardápio estão estruturados.

A configuração:

  • Todo prato marcado com dado estruturado de alérgeno, usando como base a lista da RDC 26/2015 somada aos alérgenos europeus ausentes dela.

  • A interface do cardápio expõe uma faixa de filtros no topo: "sem glúten | sem leite | sem castanhas | sem frutos do mar | sem ovo…".

  • Ao tocar em um filtro, os pratos que contêm aquele alérgeno somem da tela.

  • Os filtros se combinam: "sem glúten + sem leite" oculta qualquer prato que contenha um dos dois.

  • Um botão de "mostrar tudo" restaura o cardápio completo.

A experiência do cliente: quem tem alergia a castanhas toca uma vez em "sem castanhas" no início da refeição. Todos os pratos com castanha desaparecem. A pessoa navega só pelo que é seguro, sem precisar chamar o garçom e sem a ansiedade de imaginar o que pode estar escondido.

O impacto no negócio: cliente com restrição pede com mais confiança e gasta mais. O tempo de salão antes gasto em "isso tem leite?" migra para outras funções. E a experiência de comer com segurança é rara o bastante para virar recomendação espontânea.

O impacto em conformidade: o filtro não substitui a declaração por prato — cada prato continua exibindo os próprios ícones —, mas reduz drasticamente o atrito de encontrar as opções seguras. E, como bônus, a plataforma registra de forma anônima quais filtros são mais usados, o que costuma revelar demandas que a casa nem imaginava ter.

A Intermenu traz o filtro de alérgenos embutido no cardápio por QR code. Depois que os alérgenos estão marcados nos pratos, o filtro do lado do cliente funciona automaticamente.

Os ícones de alérgeno são compreendidos em todas as culturas?

Na maior parte, sim — com exceções importantes.

Ícones que atravessam culturas bem:

  • Trigo (glúten)— espiga ou fatia de pão, reconhecida em quase todo lugar.

  • Leite— caixa de leite ou gota.

  • Ovo— universalmente reconhecido.

  • Peixe— universalmente reconhecido.

  • Amendoim— reconhecido na maioria das culturas.

  • Castanhas— em geral representadas por avelã ou amêndoa.

  • Crustáceos— camarão ou caranguejo funcionam bem.

Ícones que não atravessam bem:

  • Gergelim— confundido com papoula ou com "sementes pequenas" em geral.

  • Soja— ícones de grão podem significar feijões diferentes em culturas diferentes.

  • Mostarda— o círculo amarelo é ambíguo fora do contexto ocidental.

  • Aipo— visualmente parecido com ervas em vários repertórios.

  • Sulfitos— praticamente não existe ícone reconhecido. Use a palavra.

Regra prática: para os sete alérgenos mais reconhecidos, o ícone sozinho dá conta; para os demais, ícone e palavra sempre juntos. Use o conjunto de ícones padrão da sua plataforma — conjunto personalizado introduz risco e quase nunca melhora a clareza.

Como nomear cada alérgeno em português

Nomenclatura importa. Use os nomes comuns que o consumidor brasileiro reconhece, na linha do que a RDC 26/2015 determina:

  • Glúten (trigo, centeio, cevada, aveia) — evite escrever só "trigo" se o prato leva cevada.

  • Leite— para alergia à proteína do leite. Separe de lactose, que é intolerância.

  • Ovo, Peixe, Crustáceos, Moluscos.

  • Amendoim— nunca agrupe com castanhas: são alérgenos distintos.

  • Castanhas— e, no detalhe, o subtipo: castanha-de-caju, castanha-do-pará, amêndoa, avelã, macadâmia, noz, pecã, pistache, pinoli.

  • Soja, Gergelim, Aipo (salsão), Mostarda, Tremoço, Sulfitos, Látex natural.

Alérgeno não é marcador de dieta

Alérgeno é categoria legal de informação de segurança. Marcador de dieta (vegetariano, vegano, halal, kosher, sem glúten, low FODMAP) é categoria de preferência do cliente. Os dois se sobrepõem, mas não são a mesma coisa.

A configuração correta: alérgenos em um campo estruturado, exibidos como ícone mais palavra; marcadores de dieta em um campo estruturado separado, com o próprio conjunto de ícones.

Por que a separação importa:

  • Quem filtra por "vegetariano" espera pratos pensados como vegetarianos, não pratos que por acaso não têm carne.

  • Quem filtra por "halal" espera preparo verificado, não apenas ausência de porco.

  • Quem é celíaco precisa do alérgeno "glúten"e de um marcador de "seguro para celíacos", porque a contaminação cruzada muda tudo.

Estruturados separadamente, os dois filtros funcionam. Misturados, nenhum dos dois é confiável.

O erro clássico: o "(V)" que não sobrevive à tradução

Um exemplo real. O cardápio em inglês marca pratos com "(V)" para vegetariano. O motor de tradução mantém "(V)" em todas as versões, assumindo que o operador quer a abreviação consistente.

O problema:"(V)" é claro em inglês. Em outros idiomas, pode não significar nada — ou pode ser lido como "vegano", o que muda completamente a informação para quem consome laticínio.

A correção: tratar marcador de dieta como etiqueta estruturada, nunca como texto abreviado. A plataforma renderiza o ícone padronizado e a palavra local automaticamente: "(V)" em inglês, "Vegetariano" em português e em italiano, "végétarien" em francês, cada um com o mesmo ícone.

O mesmo padrão vale para alérgenos. Tratar alérgeno como dado estruturado, e nunca como prosa abreviada, elimina de uma vez a categoria inteira de erro de tradução — a mesma que já custou acordos de seis dígitos a restaurantes europeus.

Checklist de implantação em cinco etapas

  1. Levante a ficha técnica de cada prato, incluindo caldos, molhos, marinadas, óleos e finalizações. É a parte mais trabalhosa e a única insubstituível.

  2. Marque o "contém" e o "pode conter" separadamente. O primeiro vem da receita; o segundo, do fluxo real da cozinha.

  3. Publique com ícone e palavra em todos os idiomas ativos do cardápio, e confira ao menos um prato por idioma.

  4. Ative o filtro para o cliente e teste você mesmo, no celular, como se fosse um cliente com três restrições.

  5. Documente a auditoria— data, responsável e fontes. Repita anualmente e sempre que trocar um fornecedor relevante.

Perguntas frequentes

Alérgenos devem ser ícone ou texto?

Os dois. Ícone para varredura rápida, palavra para clareza e cumprimento do dever de informar. Plataformas modernas renderizam ambos automaticamente quando o alérgeno é dado estruturado.

Como declarar alérgenos sem poluir o cardápio?

Ícones menores que o preço, logo abaixo da descrição, conjunto consistente e detalhe completo só sob demanda. Bem feita, a marcação é invisível para quem não precisa dela.

Onde os alérgenos devem aparecer na página?

Diretamente abaixo da descrição do prato e antes do preço — é onde eles se encaixam no fluxo natural de decisão do cliente.

Como criar um filtro de alérgenos para o cliente?

Marque os alérgenos como dado estruturado em cada prato e exponha uma faixa de filtros no topo do cardápio digital. O cliente toca no que quer ocultar e o cardápio se redesenha mostrando só o que é seguro.

Os ícones de alérgeno são entendidos em qualquer cultura?

Os sete mais comuns (glúten, leite, ovo, peixe, amendoim, castanhas e crustáceos) sim. Gergelim, soja, mostarda, aipo, sulfitos, tremoço e moluscos precisam de ícone acompanhado da palavra escrita.

Posso escrever o alérgeno na descrição do prato?

Pode, mas não deve ser a sua única marcação. Texto dentro da descrição não é filtrável, se perde na leitura rápida e se deforma na tradução. Use dado estruturado e, se quiser, mantenha a menção no texto como reforço.

Deixe o cliente filtrar o cardápio pelos próprios alérgenos

Declaração manual de alérgeno em cardápio multilíngue é frágil por natureza. Marcação estruturada, combinada com filtro do lado do cliente, é robusta, acessível e atravessa qualquer idioma sem desvio.

A Intermenu traz o filtro de alérgenos por padrão no cardápio por QR code: você marca uma vez, ele é exibido em todos os idiomas e o cliente encontra as opções seguras sem precisar chamar ninguém.

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Escrito por

Ibrahim Anjro

Founder & Business Developer

+10 years of exp in Business Development